Trecho do livro “Não Branco Não Homem – VOL 1”. Robert se lembra da morte do pai num racha, quando ele tinha 10 anos:

Ao soar da décima segunda badalada os rostos dos amigos se contraem, trazendo à superfície de suas peles os vincos, ainda leves promessas, que em algumas décadas se confirmarão em rugas: dá para se ter uma boa idéia de como suas fisionomias se transformarão com o tempo. Porque a chegada da última badalada anuncia com irrevogável pompa a presença antigo e enorme carro negro. Um longo e intenso arrepio corta Robert ao meio. Ele está para qualquer outro carro moderno como uma catedral medieval está para uma casa ecologicamente correta, dotada de festivos painéis solares. Sombrio. Grave.

O fantasmagórico Packard Super Eight 1948 preto surge por fim inteiro como uma assombração à sua frente e, mesmo sem ver o rosto do motorista, Robert o vê gargalhando ou o escuta gargalhando, tudo ao mesmo tempo.

É uma gargalhada apocalíptica que anuncia o final dos tempos para os honestos e os ímpios, tornados iguais quais cadáveres jazendo sobre a manhã seguinte no campo sepulcral de batalha, simplesmente uma má época, a época errada para se ter vivido, não importa o que se fizesse, tudo estaria mesmo fadado ao fracasso, assim ela o sentencia.

Uma hora era o barulho horroroso dos pneus guinchando e o estrondo da colisão. Outra hora ele estava na cabine, dentro do carro de seu pai, e este lhe segurava a mão em pânico, enquanto seus olhos sempre tão equilibrados, dessa vez esbugalhados, lhe suplicavam: “por favor me ajude, por favor”. Mas agora já não era mais nada disso. Seu pai, com aquele mesmo olhar indescritivelmente desconhecido e familiar, o encara e profere suas derradeiras palavras:

“Nunca deixe, filho, nenhum filho da mãe ser mais rápido que você; se não quiser ter o mesmo destino que seu pai.”

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