Livros não são escritos, eles se escrevem sozinhos e nos usam para isso

Várias vezes acordei de madrugada com alguma idéia para o meu livro. Aí me levantava, registrava e depois ficava pensando “por que esse livro desgraçado não me deixa dormir em paz”?

Um dia tive essa idéia delirante. A ciência nos diz que há quatro forças da física que respondem por tudo o que se mexe no universo, seja vivo ou inanimado. Mas nunca me vi levantando de madrugada para escrever em virtude da força da gravidade, eletromagnética, ou força nuclear forte e fraca. Daí pensei, e se a Vontade fosse uma força da física?

Resolveria muitos problemas, não teríamos mais que aturar discussões entre os deterministas e os defensores do livre arbítrio, por exemplo. Premonição, telepatia, telecinese e todas essas coisas de sexto sentido que sabemos que existem, achariam sua validação científica

Ato contínuo, fui atravessado por essa conclusão inusitada: nesse caso, os objetos teriam de ser seres desejantes também. A explicação é simples. Todos os corpos que participam de uma interação física, dos planetas e estrelas às partículas sub atômicas, são tanto ativos como passivos. O sol tanto atrai a Terra como é atraído pelo buraco negro no centro da via láctea. O mesmo se dá em todos os cenários afetados por interações da matéria Ou o negócio é com todo mundo, ou com ninguém. Logo, portanto, se a Vontade é uma força da física e eu quero comer um chocolate, o chocolate quer…ser comido por mim?! Minha nossa.

A coisa ficou mesmo estranha quando imaginei “e se não for eu que quero escrever o livro, mas o livro é que quer ser escrito por mim?”

Concordo que é um pouco absurdo. Mas, afinal, quem nunca teve um carro ciumento ou panelas rebeldes? Imaginem só as consequências disso. Calculem o golpe na nossa auto estima de seres supostamente auto governados e independentes. Há mais de 100 anos, o advento da psicanálise e a descoberta do inconsciente reduziu muito a importância da consciência e do pensamento racional, um pouco relegados a pau mandado das forças inconscientes e dos desejos reprimidos. E agora, talvez nem os desejos inconscientes sejam exclusivamente nossos? Que dureza!

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