Me lembro da ansiedade anterior ao primeiro dia de aula. Na verdade, essa sensação de pré estréia estava mais para medo profundo. Não me pergunte porque, eu sempre fui uma criança muito assustada, com medo de gente. “Volta às aulas” ainda é uma expressão que me remete a terror, sem muito esforço de memória. Também não sei direito a causa disso, a chegada à nova classe, os rostos estranhos, será que a professora seria muito brava, sei lá, muitas incógnitas incontroláveis. No domingo derradeiro, já após o almoço eu começava a submergir numa reflexão circunspecta sobre os limites estreitos da felicidade humana. Ou seja, das férias.
O momento seguinte nesse revival já corre para dez anos depois. O Flávio tinha uma Brasília verde metálica novinha em folha, com um volante pequeno imitando madeira. Na época, os sonhos de consumo de rapazes que completavam dezoito anos tinham passagem obrigatória por um Passat TS na melhor das hipóteses ou, se não desse, por uma Brasília rebaixada. Como os carros da época não tinham direção hidráulica, nem imagino como é que conseguíamos fazer alguma baliza com estes volantes pequenos, com que esforço descomunal. Bom, há desejos na vida que desafiam qualquer lógica ou bom senso, e este meu (e da rapaziada) pelo volante pequeno continua com presença garantida nos dez desejos mais disfuncionais que eu jamais terei.
Se a essa altura você se pergunta que relação estas minhas memórias guardam com o título da crônica, a resposta é simples: em todas elas, eles não estavam, não. Os não brancos. Não apareceram em nenhuma das minhas salas de aula, e nem nunca passaram perto do banco de trás da Brasília verde metálica do Flávio. E o que mais me chama a atenção hoje é que eu nunca vi nada de estranho nisso. Nunca me perguntei do porque, por que me perguntaria? Era difícil sentir falta de algo que não existia para mim, simplesmente não era parte da minha realidade. Os não brancos e seu não lugar em nenhum tempo que me dissesse respeito.
Se não estavam comigo, onde diabos estariam, então?
Mais uma rodada no relógio da minha vida e lá estou eu, outro dia, na mesa do café da manhã lendo, no jornal do tablet, essa estatística estranha. Que, a princípio, confesso, não me disse nada. Sessenta e cinco mil, seiscentos e dezesseis. Foi o número de mortos por arma de fogo em 2.017 no Brasil. A expressiva maioria das vítimas foram homens jovens e não brancos (a julgar pelos números da população carcerária, a maioria dos assassinos foi também de não brancos). Gosto de fazer conta, então tentei calcular o volume desta pilha de cadáveres. Se tivesse cinco por cinco metros de seção, esta coluna alcançaria quase um quilômetro de altura. Todo o ano.
Aí eu entendi. Foi aí que eu entendi porque da ausência deles na carteira ao meu lado, ou na Brasília do Flávio, cantando alto junto com o rádio. Eles, os não brancos, estavam muito ocupados em outra parte, adquirindo ingresso para essa instalação mórbida mais alta que o Burj Khalifa, o prédio mais alto do mundo. Só para lembrar, posse ou não posse de armas é discussão de branco urbano, porque nas comunidades e no campo elas já correm soltas para todos os lados. Afinal, em muitos lugares desse Brasil varonil, é mais fácil contratar um bom matador do que um bom encanador.
Prosseguindo na minha busca por não brancos, um tanto surpreendente foi acha-los nesse mesmo jornal do café da manhã, ao lado dos empresários, no meio das páginas do caderno de economia, escondidos na afirmação de um economista conceituado cujo nome não me lembro:
– Para crescer com consistência, o Brasil precisa melhorar a produtividade no trabalho.
Não tenho particular simpatia por essa mania dos economistas de trocar nós, brasileiros, por essa entidade imaginária chamada Brasil. O Brasil precisa fazer isso e aquilo, e ninguém sabe onde foi parar esse desgraçado do Brasil, que ninguém consegue falar com ele! Deixa pra lá, o que esse economista quis realmente dizer, numa tradução livre e menos polida, foi que o trabalhador brasileiro não está valendo o que custa, por falta de capacitação técnica. Tomando como referência o fato de que o número de analfabetos não brancos é mais do que o dobro do que o dos brancos, chegamos a essa conexão sinistra. Não contentes em estarem ausentes dos bancos de escola devido ao encontro marcado com a pilha de cadáveres no cemitério, os não brancos ainda encontraram tempo para atrapalhar a nossa margem de lucro com a desgraçada da sua baixa produtividade.
Para terminar, sempre dizemos que, no Brasil, o problema é social, não racial. Quem sou eu para discordar? Só que, aos 57 anos, não me lembro de ter sido algum dia atendido por um médico não branco em hospitais paulistanos de ponta (no Brasil, são 18% do total). E, de qualquer forma, é muito ruim sob todos os aspectos que a pobreza brasileira seja mais ou menos coincidente com certas características étnicas e raciais, prontamente identificáveis a olho nu. Me lembro bem até hoje do meu susto quando aos 16 anos fui estudar nos EUA como Exchange student, e me deparei nas ruas com miseráveis loiros de olhos azuis. Não sabia que existiam!
Não me entendam mal. Eu não me julgo uma pessoa particularmente boa e não devo ligar muito para os pobres, porque nunca fiz nada por eles, além de comprar umas balinhas no farol e lhes dar alguns poucos empregos. Mas essa situação toda, péssima em primeiro lugar para os não brancos, claro, mas muito ruim para todos os brasileiros, já encheu o saco. O de vocês, não?


