Texto presente no final do segundo volume, escrito não por mim, Toni Grado, mas pelo polêmico personagem Não Homem, sob encomenda de um jornal para o tema “eleições”:
“Tudo começou do medo. O medo que nós, cidadãos comuns, sempre tivemos de sermos oprimidos por governantes poderosos vorazes por mais e mais poder. Tínhamos que estabelecer um laço com esses governantes para que eles trabalhassem por nós e não por si mesmos. Afinal, acreditávamos, o poder emana do povo. Afinal, somos mais numerosos. Nós iríamos escolher nossos governantes. E, uma vez que concedêssemos autoridade para que estes realizassem as tarefas de governança, precisáríamos arrumar um jeito de estabelecer limites para esse poder.
Começando pelo primeiro problema, que tipo de laço seria este, que nos defenderia contra a ganância de terceiros? Não seria de afeto ou parentesco (supondo que nem todos podem ser parentes ou amigos dos políticos), não de convivência (como a que temos com antigos colegas de regimento), não seria nada disso. Seria de idéias comuns, de projetos para a sociedade, sejam econômicos, políticos, sexuais, ou coisa que o valha. Que o candidato a ocupar o poder anunciaria para nós, cidadãos comuns. Para o poderoso que defendesse as idéias com as quais mais concordássemos, entregaríamos algo importantíssimo chamado voto. Este voto representaria o laço com os poderosos selecionados, e estaria inserido num contrato assinado por todos, os votantes e os votados. Este contrato regeria desde o modo como é feito a coleta dos votos (a eleição propriamente dita), para que cargos (o que inclui atribuições limitadas), com qual remuneração e por quanto tempo.
E, com isto, resolveríamos também o segundo problema, de estabelecer limites para o poder. Porque a cada “x” número de anos, previamente acordado, o poderoso seria substituído compulsoriamente por outro, selecionado através do voto em uma nova lista de candidatos. E assim por diante. Perfeito, não? Eficaz, pelas idéias. Prudente, pela limitação do poder. E justo, por levar em conta a vontade da maioria. Mas será que temos recebido uma retribuição decente pela incomensurável credibilidade que atribuímos a este processo chamado de eleições democráticas?
Vamos recapitular. Funciona mais ou menos assim. Damos algo que tem muito valor para quem recebe, damos para alguém desconhecido baseado num serviço que ele declara pretender nos prestar. É uma troca fria, objetiva, isso se tudo der certo. Há esta montanha de dinheiro coletado através de impostos, que será administrada por funcionários públicos eleitos, que por esse serviço se contentarão em receber uma fração minúscula da tal montanha. Pulando a parte da ganância de ficar com algo que não é seu, qual é a chance do serviço ser bem prestado? Claramente, esta chance é pequena. Por que?

Uma eleição funciona exatamente igual a quando contratamos alguém para consertar nosso encanamento, mas com a desvantagem de não estarmos perto o suficiente para termos certeza se o serviço foi ou não executado, e caso concluamos que este não foi o caso, não temos nem o telefone e nem o endereço do desgraçado. Pior, como éramos ingênuos, pagamos adiantado. Para qualquer pessoa com mais de 4 anos de idade que viva há algum tempo numa cidade grande, este não parece o tipo de contrato que se aceitaria tomar parte. Mas, como não temos opção (“você prefere isso ou prefere não ter representante nenhum?” ), vamos nos submetendo aos rituais eleitorais sistematicamente com um descontentamento que vai, no melhor dos casos, da resignação atuante (“é melhor votar do que não fazê-lo e se omitir; é só votar bem que a coisa funciona”) à omissão atuante (“não voto porque sou contra estes políticos, por princípio”), ou mesmo até a indignação armada.
Além da falta de transparência na aferição dos resultados de uma administração e do pagamento adiantado, o que mais está errado? Em primeiro lugar a idéia completamente anti-democrática de que este é o único modo de fazer as coisas. Sempre que nos dizem que não há alternativa, é porque estamos sendo vítimas de arbitrariedade ditatorial, e pelo bom motivo de que alguém (que nunca somos nós) ou vai ganhar muito dinheiro ou não quer perder o que já conquistou.
Em segundo lugar, temos o problema das substituições representativas. Era para nós, cidadãos participantes, estarmos lá governando, mas como é muito longe e temos muito o que fazer, mandamos alguém no nosso lugar. Este alguém era para ser alguém conhecido, mas como a sociedade é muito grande e cheia de pessoas, tivemos que nos contentar com mandar alguém desconhecido. Este alguém era para ser alguém em quem nós simplesmente confiássemos, como confiamos em nossos pais ou em um amigo. Como isso também não era possível, inventamos que as idéias podem ocupar o lugar da confiança.
Nós deveríamos ouvi-las do próprio homem, para que tivéssemos a chance de, ao olharmos diretamente em seus olhos, podermos flagrar alguma falsidade ou má intenção. Como os candidatos não podem ser pessoalmente entrevistados por todos os cidadãos votantes, então nesta entrevista é substituída ou representada por imagens, sons e palavras que nos chegam pelas redes sociais, pela televisão, pelo rádio ou pelo jornal. Estas pessoas, os tais repórteres, que se encontram diretamente com o candidato eram para ser nossas conhecidas, mas como isto seria pedir demais de uma sociedade com milhões de pessoas, as tais imagens, sons e palavras que estão no lugar de alguém desconhecido que está no lugar de alguém conhecido que está no lugar de nós mesmos, são feitas por gente cujas famílias e idéias nós não conhecemos.
E no lugar de pedirmos diretamente a ele que fizesse o serviço, colocamos o voto que representa esta longínqua solicitação.E quem, mesmo, supostamente eram estas pessoas em quem votamos? Era para ser alguém cheio de espírito cívico e com enorme capacidade de doação generosa e cooperativa, mas como não existe ninguém assim, e aí não dá para confiar em ninguém, inventamos um modo de nos garantirmos que foi o mandato por prazo determinado. A idéia é que se ele for horrível, “só” teremos que suportá-lo por quatro ou cinco ou sei lá quantos anos. Mas um dia acaba.
Por fim, em terceiro lugar, temos a questão da solução da maioria. Não temos nenhuma certeza de que as pessoas façam a menor idéia do que é mais adequado para promoção do seu próprio bem estar na administração pública. Colocado em outros termos, supondo que estas encomendas de serviços, garantidos apenas pela honestidade dos candidatos, sejam executadas conforme o pedido do cliente – cidadão, será que esses pedidos eram bons pedidos? Claro que sim, dirá você, foram elaborados pela maioria.
Ou seja, apesar de tudo o que vale a pena mencionar, na hora de declararmos orgulho de sermos humanos, ter sido inventado por alguém sozinho ou em franca minoria (imagine o processo de votação para a colocação das notas na partitura da quinta sinfonia de Beethoven), como governar a sociedade é algo desimportante, resolvemos arriscar um método novo segundo o qual “a maioria é que manda”. Vai que dá certo, não é mesmo?
Tínhamos nossas aspirações (participação indireta no poder), e o voto ocupou o lugar virtual delas. Infelizmente, outras entidades também tinham suas aspirações, tais como privilégios financeiros e reivindicações de espaço direto no poder, e estas terminaram por nos sobrepujar a todos e ocupar o lugar concreto do voto. No fim, o dinheiro (ou o acesso a ele) é o último representante, o indivisível, aquele que não pode ser reduzido a nada.
Dinheiro e poder, do qual a eleição seguramente é uma espécie de desvio compulsório: gastamos todos uma fortuna incomensurável para realizá-lo, o ritual da eleição, e após a sua realização, determinados grupos poderão ter a certeza de que este fluxo de dinheiro e poder passará por eles. Começamos cheio de boas intenções sobre como vamos ser donos de nossos próprios narizes, de como vamos viver numa sociedade em que todos têm a chance de mandar e terminamos deploravelmente nisso, com alguém sorridente enfiando a mão no nosso bolso e com tudo e todos a seus pés.Talvez um dia, quando as sociedades eram menores, isso possa ter sido uma boa idéia. Mas hoje?
Eu, pessoalmente, acho que não. Eu, pessoalmente, estou cheia de tudo isso. Tanto dessas soluções gastas como das lendas catastróficas, de horror e morte, sobre quem se arriscar a ir para lá, para adiante, para depois dos horizontes conhecidos das “eleições democráticas”. Acho que passou da hora de desfraldarmos as velas, abandonarmos os portos seguros e nos lançarmos ao mar. Reencontrar a esperança. Ou morrer tentando.”


