No interior, o que a sabedoria popular diz de sujeito que fala demais é que “fulano dá bom dia a cavalo”. É a pessoa que sai pela rua cumprimentando qualquer coisa que se mexa e acaba até dando bom dia ao cavalo. Bem perspicaz. Vivemos um tempo em que é quase irresistível dar um pitaco em qualquer assunto de quem quer que seja. Eu mesmo me pego discutindo inflamado temas nos quais não investi nem cinco minutos estudando.
Daí a relevância de se mencionar a epistemologia, um dos estudos fundamentais na filosofia. Lida com algo que me parece central em tempos de mídias sociais e destemperos opinativos: o que é conhecimento e seus diferentes tipos de objeto, suas diferenças com a crença, e as diferentes modalidades, como o obtemos e comprovamos, e quais são os limites desse conhecimento humano.
É atribuição da epistemologia reconhecer que o pensamento e a vontade de um ser humano, seja um outro ou nós mesmos, não são conhecíveis no mesmo sentido em que é a lei da gravidade. De fato, até mesmo a infalibilidade do determinismo científico sofreu um grande abalo recente com o Princípio da Incerteza da Física Quântica.
O que é bacana em tudo isso é notar que o ser humano um dia se preocupou seriamente com a depuração do conhecimento. Fez isso numa espécie de devoção sagrada pela verdade, doa a quem doer. Pode-se dizer que no mundo da ciência ainda é assim, salvo um ou outro charlatanismo de algum cientista, rapidamente desvendado por seus pares.
Mas e nós, no nosso mundinho normal, atual? Com exceção daqueles que já não se interessam mesmo pela verdade e o conhecimento porque estão resolvendo questões internas através da submissão a bandos (o que é uma baita de uma exceção, mas da qual trataremos em outras crônicas), como está a relação do resto de nós com a verdade? O que temos à mão para emitir os juízos que acaloradamente emitimos todos os dias nas diferentes mídias?
Muito mais do que no passado, dirão rápido os mais eufóricos com a evolução humana. No entanto, me parece que a sensação de incompletude se amplia mais e mais. É como o marido ciumento que quanto mais a esposa lhe conta, mais desconfiado ele fica de que algo está faltando. Bem semelhante à nossa ansiedade paranoica com receber instantaneamente todas as informações.
Exemplos dos últimos tempos, coletados de memória: pessoas se sujeitando a grandes riscos porque “vacinas trazem doença, não prevenção”; em compensação, pulseiras de plástico trazem um “bem estar inexplicável e uma melhora no senso de equilíbrio”; os imigrantes estão roubando nossos empregos (mesmo que não aceitemos fazer o que eles fazem, pelo dinheiro que ganham); a previdência não tem déficit, os governos poderiam acabar com a pobreza imprimindo dinheiro e distribuindo aos pobres (só não fazem isso para atender aos interesses dos ricos), e até as doenças entram e saem de mod, como calça boca de sino.
Todos esses temas que muitos de nós defendemos com unhas e dentes. E por que temos falado tanta besteira e dado tanto bom dia a cavalo? Não é porque temos certeza do que falamos. É justamente porque não temos certeza de mais nada. Se absolutamente todos os números, dados, pesquisas e fatos são dedutíveis de agendas alheias, interesse por interesse, eu fico com o meu. Me sentindo autorizado a emitir opinião sobre qualquer coisa, liberado de antes adquirir um mínimo que seja de conhecimento sobre a matéria. Tal é o efeito corrosivo da desconfiança sobre o conhecimento em um mundo que nos parece carecer mais e mais de sinceridade, autenticidade.
Não é outra a razão pela qual tem havido uma forte demanda por líderes políticos “autênticos”. Ou porque vivemos uma verdadeira febre por “reality shows”. Ou ainda porque o esporte tem sido, em toda a indústria do entretenimento, o ramo que mais expandiu audiência, faturamento e salários. Na competição, temos certeza que os atletas estão, naquele momento, realmente envolvidos cem por cento com a busca da vitória.
Percebemos contrariados que tudo o que nos dizem, sejam pessoas ou mídias, chega viciado por uma agenda oculta e não declarada que querem nos empurrar. Não se trata nem de dizer que este é um mundo de vendedores inescrupulosos, porque não há mistério no objetivo desses. Está mais para um mundo de trapaceiros profissionais. Mas, sendo assim, nossa reação normal a essa realidade que nos chega já toda viciada não deveria ser a cautela? Por que nossa exaltação?
Nossa gritaria destrambelhada não está fundada nos conteúdos manifestos. Não se trata de ideologia, de preferência por fulano ou beltrano, das convicções sobre as políticas públicas e as injustiças que enxergarmos aqui ou ali. No fundo, nosso berreiro está dizendo o seguinte “alguém me ajude porque não estou entendendo nada, tenho necessidades insatisfeitas e todos à minha volta parecem mais interessados na minha carniça do que em qualquer outra coisa”. O que resta fazer a uma criança pequena que se desgarrou dos pais no meio de uma rua movimentada?
Berrar.


