Definitivamente não é um livro sobre como as coisas foram, são ou deveriam ser. Vivemos numa época com uma disputa acirrada entre grupos pela primazia do Ser, supondo que é lá que se encontra o Poder (e aparentemente é, mesmo). Logo percebi que não tinha nada a dizer sobre isso, assunto já suficientemente explorado todos os dias por colossais tsunamis de palavras e textos diariamente despejados sobre nossas cabeças através de todos os canais imagináveis.
Não é como se estivesse só faltando a minha voz nesse ensurdecedor coral raivoso que lida com o Ser e com como as coisas deveriam ser. Mas sobre o Não Ser rapidamente percebi que a paisagem quase desértica era bem mais promissora para as minhas aptidões. Por que desértica? Difícil imaginar um pai pulando de alegria ao ouvir seu filho responder a inefável pergunta “o que você quer ser, quando crescer?” com um “quero ser nada”! Nada, como? Nada, por que? Estará deprimido?
O fato é que a humanidade sempre operou dentro de um equilíbrio entre Ser e Não Ser. Apesar de que não há como comprovar isso, uma vez que o Não Ser não deixa rastros. Então, como eu sei que houve equilíbrio? Não estaríamos aqui se não tivesse havido.
Assim como também não há caminho de comprovação para a afirmação que talvez estejamos vivendo o pior desequilíbrio de nossa curta história de poucas centenas de milhares de anos em favor do Ser. E como eu sei disso? Porque sinto em mim e no olhar suplicante e exausto de muitos ao meu redor um Não Ser acuado em cada interstício ou rachadura na cada vez mais alta muralha do Ser.
Muito desse desequilíbrio entre Ser e Não Ser advém dos papéis redesenhados para o masculino e o feminino. Não, o Não Ser não tem a sua existência silenciosa (e, por definição, não documentável) como uma responsabilidade essencialmente feminina. Mas que o excesso de regulamentação na atual despresença do feminino atrapalha, atrapalha.
E, você me pergunta, o que tem de não documentável que possa ser tão importante assim? Ora, só o desejo. Podemos documentar a sua manifestação, o resultado do que supomos ser sua ação, mas não o desejo, em si. Tanto não podemos documenta-lo que é possível considera-lo uma ilusão, muitos o fazem (“só há reações eletroquímicas no cérebro, o resto é a ilusão da mente”, dizem estes).
O Desejo é o Não Ser. O Vazio é o Não Ser. De um depende a possibilidade da existência do livre arbítrio. Do outro…bem, tudo. Não haveria diferença sem os vazios enormes constituindo toda a matéria, todo o universo visível e concreto. Mas, vá definir o Vazio. Não Ser. Não é pouca coisa.
E eis-me aqui, homem branco, me pondo a escrever um livro com esses dois personagens, Não Branco e Não Homem. O que possivelmente eu poderia saber sobre esses dois? De fato, não há qualquer contradição nisso. Considere, por um instante, que homem branco seja uma doença (só à guisa de diversão, já que ultimamente tem parecido ser exatamente isso). Ora, ninguém conhece melhor a saúde do que o doente.
Mas sobre o que é mesmo o livro, caramba? É uma saga política e de costumes em torno da emblemática candidatura da genial e polêmica cientista hermafrodita Não Homem a prefeitura, numa grande metrópole (tendo Não Branco, perigoso narcotraficante, como vice na chapa; camuflado).
Estes dois não são (ou até mesmo se recusam a ser) algo para os outros. Enquanto buscam ser algo para si mesmos. Não, não é um livro de queixas e fraquezas. Mas sobre o resgate da própria força. Enfim, mais do que um livro sobre os excluídos e injustiçados por um Outro poderoso, o tema da obra é o desarranjo contemporâneo do Eu, seja para os que pertencem a minorias, seja para os pertencentes aos grupos dominantes.
No fundo, somos todos excluídos. De nós mesmos


